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Presença dos iorubás no conjunto de Influencias africanas no Brasil

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Apesar das variantes dialetais, os iorubás foram reconhecidos como integrantes de um único grupo no Brasil, por falarem o mesmo idioma e considerarem-se descendentes de Odudua, da velha Ile Ifé. Eram, em sua maioria, oriundos de Daomé, atualmente, República do Benin, colonizada pelos franceses. Para referir-se a eles, a administração francesa adotou a forma utilizada pelos fon: nagô, nagonu ou anagonu. Enquanto os iorubás ficaram conhecidos no Brasil como nagôs, os fon ficaram conhecidos como jêjes ou minas. Os fon de Abomey, fundadores do antigo Reino do Daomé, pertencentes ao povo aja, estiveram durante muito tempo sob o domínio iorubá. Daí a grande similaridade de crenças entre os iorubás, os fon e outros povos de língua ewe.

Há controvérsias a respeito do significado das palavras nagô, nagonu e anagonu. Caso oriundas, de fato, do idioma fon, têm por significado sujeira, lixo. Mercier (citado por Santos, 1986) é de opinião, contudo, que de fato são agrupamentos iorubás no círculo daomeano de Porto Novo e de regiões adjacentes da colônia e da divisão de Illare, que chamam a si mesmos de anago e conhecem unicamente esse nome.

No Brasil foi adotado o nome anagonu ou nagô para denominar os iorubás, independentemente de seu reino de origem. Diz Rodrigues: Como os franceses, na Bahia chamamos nagôs a todos os negros da Costa dos Escravos que falam a língua iorubana. Desta procedência, tivemos escravos de todas as pequenas nações daquele grupo: de Oyó, capital de Iorubá, de Ilorin, Ijesa, Ibadan, Ifé, Iebú, Egbá, Lagos, etc. Alguns destes nomes acham-se muito deformados entre nós. Na palavra Egbá, por exemplo, muitos negros não pronunciam o g, donde encontrar-se em documentos do tráfico e da escravidão a designação de negros de Ebá ou simplesmente negros Bá. Assim ainda em relação a Ijesá. Os iorubanos tem aqui o som de x e o j de dg; a palavra se pronuncia pois idjêxá, que facilmente soa digêxa; donde provieram para os documentos oficiais os negros gexás.

Os nagôs são ainda hoje os africanos mais numerosos e influentes neste estado (Bahia). Existiam aqui de quase todas as pequenas nações iorubanas. Os mais numerosos são os de Oyó, capital do reino de Iorubá, que naturalmente foram exportados ao tempo em que os haussás invadiram o reino, destruíram sua capital e tomaram Ilorin. Depois, em ordem decrescente de número vem os de Ijêsá, de que sobretudo há muitas mulheres. Depois os de Egbá, principalmente da sua capital Abeokutá. Em menor número são os de Lagos, Ketú, Ibadan. Apenas conheci um negro de Ifé. Conheço três de Iebú, dos quais o que estacionava todos os dias na porta do conhecido Bazar 65, de cujos proprietários foi escravo, acaba de falecer. Em geral, os nagôs do centro da Costa dos Escravos, os de Oyó, Ilorin, Ijêsá etc, são quase todos, na Bahia, muçulmis, malês ou muçulmanos, e a seus compatriotas se deve atribuir a grande revolta de 1835.1
Durante o último período da escravatura, os iorubás foram concentrados nas zonas urbanas, então em pleno apogeu; nas regiões suburbanas ricas e desenvolvidas do Norte e Nordeste, particularmente em Salvador e no Recife. Ligados pela origem mítica comum, pela prática religiosa e semelhança dos costumes, rapidamente os diversos grupos nagôs passaram a interrelacionar-se. Não perderam contato com a África, dada a intensa atividade comercial entre a Bahia e a Costa Africana.

Do mesmo modo que na África Ocidental, a religião impregnou e marcou todas as atividades do Nagô brasileiro, estendendo-se, regulando e influenciando até suas atividades as mais profanas. Foi através da prática contínua de sua religião que o Nagô conservou um sentido profundo de comunidade e preservou o mais específico de suas raízes culturais. A história de Kétu é preciosa como referência direta no que concerne à herança afro-baiana. Foram os kétu que implantaram com maior intensidade sua cultura na Bahia, reconstituindo suas instituições e adaptando-as ao novo meio, com tão grande fidelidade aos valores mais específicos de sua cultura de origem, que ainda hoje elas constituem o baluarte dinâmico dos valores afro-brasileiros.2

Rodrigues (1976:123) considera impossível definir com precisão a data de chegada dos primeiros nagôs ao Brasil. Só no começo do século XIX se tornou conhecido dos europeus o poderoso reino de Iorubá. Nação central, foram as invasões haussás que os repeliram para a costa e fizeram fundar Lagos, que tão saliente papel desempenhou no tráfico africano... está demonstrado que dos fins do século XVIII até quase metade do século XIX, os nagôs foram largamente introduzidos no Brasil e exerceram decidida influência na constituição do nosso meio social mestiço... foram introduzidos não só depois dos trabalhos de limitação do tráfico ao sul da África (1817), mas ainda por muito tempo após a proibição total do tráfico (1831).

Verger (1957) informa terem chegado ao Brasil, no ano de 1846, um grande número de iorubás. Uma divisão dos negros por "nações", baseada sobre os contratos de venda e compra de escravos, entre 1838 e 1860, extraída dos arquivos municipais da cidade de Salvador (Bahia) oferece as seguintes cifras: Nagôs 2049, Jejes 286, Mina 117, Calabar 39, Benin 27, Cachen 1, ou seja, 3060 de origem sudanesa e Angola 267, Cabinda 65, Congo 48, Benguela 29, Gabo 5, Cassanje 4 e Moçambique 42, ou seja, 460 de origem banto.

Conforme mencionado anteriormente, as contendas entre grupos étnicos na África tiveram conseqüências no tráfico de escravos para o Brasil: os ataques contínuos dos daomeanos dirigidos contra seus vizinhos do Sul, do Norte e do Leste, e a pressão dos fulani sobre Oyó, a capital do reino iorubá, impedindo seus exércitos de defender os territórios mais distantes do seu império, tiveram como resultado a captura e, em seguida, a venda de numerosos grupos egba, egbado, e sabe, particularmente dos kétu, embarcados em Huida (Ajuda) e em Cotonu. A esses contingentes agregaram-se - depois da queda de Oyó e de desapiedadas lutas intestinas que culminaram com a revolta e a perda de Ilorin - grupos provenientes do próprio território de Oyó, grupos Ijesa e Ijebu. Os kétu foram os mais profundamente atingidos pelos daomeanos de Abomey. (Santos, 1986:28,32)

Idioma iorubá no Brasil

O filólogo João Ribeiro escreveu: Sob a denominação de ‘elemento negro’ designamos toda a espécie de alterações produzidas na linguagem brasileira por influência das línguas africanas faladas no Brasil. Essas alterações não são tão superficiais como afirmam alguns estudiosos. Ao contrário, são bastante profundas, não só no que diz respeito ao vocabulário, mas até ao sistema gramatical do idioma.

Na infinita multiplicidade e matizes dos seus dialetos, as línguas eram tantas que, num exagero quase desculpável, se poderiam dizer equivalentes em número ao dos carregamentos de escravos lançados no país. Em tais condições, tornou-se uma necessidade imperiosa para os escravos negros adotar uma língua africana como língua geral, em que todos se entendessem.

Destarte, ao desembarcar no Brasil, o negro novo era obrigado a aprender o português para falar com os senhores brancos, com os mestiços e os negros crioulos, e a língua geral para se entender com os parceiros ou companheiros de escravidão.13

Das muitas línguas africanas faladas no Brasil, duas predominavam e foram adotadas como línguas gerais: a nagô ou iorubá, na Bahia e a quimbunda ou congolesa no norte e no sul. Já o Visconde de Porto Seguro tinha assinalado com precisão o papel de língua geral desempenhado na Bahia pelo nagô. É ao nagô que se refere Reclus quando afirma que "na Bahia, os pretos cantam estribilhos da África, servindo-se da sua velha língua para as cerimônias de feitiçaria". Atos tão correntes do culto jeje-iorubano ... são realizados em língua nagô.

A língua nagô é, de fato, muito falada na Bahia, seja por quase todos os velhos africanos das diferentes nacionalidades, seja por grande número de crioulos e mulatos. Quando neste Estado se afirma de uma pessoa que esta fala língua da Costa, entende-se, invariavelmente, que se trata do nagô. Ela possui mesmo, entre nós uma certa feição literária que eu suponho não ter tido nenhuma outra língua africana no Brasil, salvo talvez o haussá escrito em caracteres árabes pelos negros muçulmis. É que muitos negros que aprenderam a ler e a escrever corretamente esta língua em Lagos, têm estado na Bahia e aqui a têm ensinado a negros baianos que já a falavam.14

A Religião Tradicional Iorubá no Brasil

De todas as instituições africanas entretidas na América pelos colonos negros ou transmitidas aos seus descendentes puros ou mestiços, foram as práticas religiosas do seu fetichismo (práticas religiosas dos nagôs) as que melhor se conservaram no Brasil... na influência recíproca que exerceram uns sobre os outros os diversos povos negros acidentalmente reunidos na América pelo tráfico, se havia de fazer sentir poderosa a ação absorvente das divindades de culto mais generalizado sobre as de culto mais restrito, a qual, nestes casos se manifesta como lei fundamental da difusão religiosa. É assim que as divindades já quase internacionais dos iorubanos se estão desenvolvendo, na Costa dos Escravos e do Ouro, à custa das divindades apenas nacionais dos jejes e melhor ainda à custa dos simples fetiches de tribos ou clãs dos tshis ou minas. Esta lei assim exemplificada e posta em evidência por A. Ellis para os povos negros da Costa dos Escravos dá a razão psicológica da preponderância adquirida no Brasil pela mitologia e culto dos jejes e iorubanos, a ponto de, absorvendo todos os outros, prevalecer este culto quase que como a única forma ritual organizada de nossos negros fetichistas. Este fato me havia impressionado e, consignando-o, em 1896 eu o atribuí ao grande predomínio numérico dos nagôs sobre todos os outros africanos. Reconheço hoje que não era de todo justa a explicação, pois tão numerosos como os nagôs foram os colonos de outras procedências, sobretudo os angolas. A sugestão coletiva exemplificada na lei de Ellis, servida pela melhor organização do sacerdócio e pela difusão da língua nagô entre os negros africanos e os crioulos, sem excluir a importância do fator numérico, explica de modo completo o fenômeno observado, atestando em todo o caso a ascendência espiritual ou cultural deste povo.15
Nina Rodrigues, a partir dos fenômenos que observara, supunha que seria breve a permanência da prática religiosa nagô em nosso meio: não se haja de concluir que, na nossa opinião, a religião e o culto jeje-nagô não terão de desaparecer do Brasil. Como culto organizado ele persistirá ainda por largo prazo, mesmo após a extinção dos velhos africanos sobreviventes à escravidão. Grande número de terreiros na capital como principalmente no interior do Estado já são dirigidos atualmente por negros crioulos e mestiços, instruídos nessas práticas litúrgicas. Mas é evidente que, no conflito com o exemplo e as instituições do novo meio, a tendência será ao esquecimento completo dessa religião como culto organizado. Já esse fato se dá no Maranhão, onde os filiados do último terreiro não passavam, em 1896, quando lá estive, de umas vinte e poucas negras e mulatas.16

Ao tratar do complexo cultural jêje-nagô, Barros (1993), aponta para a função social das práticas rituais religiosas: impossibilitados de oferecer resistência legal a níveis econômico e político, os africanos criaram seu espaço de resistência cultural e de luta social, nas relações de grupo estabelecidas em torno das práticas religiosas. E o poder instituído? Como reagiu a essa formação social? Albuquerque, citado por Barros (1993:13) comenta: O Estado apoiou a Igreja na repressão a essas práticas não católicas e estimulou a formação de irmandades que incorporavam a população de cor, escrava ou livre, aos quadros sociais controlados oficialmente. Barros considera a religião um fator preponderante no reagrupamento institucionalizado dos africanos e seus descendentes.
Verger observou que o ritual cerimonial dos nagôs (e em menor grau o dos jejes) é, de fato, aquele que na Bahia conservou melhor seu caráter africano e influenciou fortemente o das outras "nações". Esses negros foram todos batizados mas permaneceram ligados a suas antigas crenças... Seus cantos e danças, que aos olhos dos proprietários passavam por simples distração de negros nostálgicos, eram em realidade, reuniões em que eles invocavam os Deuses da África ... Todo mundo ficava contente: o Governo de dividir para melhor reinar e assegurar a paz do estado; os escravos por cantarem e dançarem, as divindades africanas por receberem louvação, os senhores, por verem sentimentos assim católicos.17

Alguns iorubás, já velhos, retornaram à África...

Muitos negros, velhos escravos libertados, não muçulmanos, retornaram igualmente à África no início do século XIX, dedicando-se, por sua vez, ao comércio dos escravos ao qual sucedeu-se o de diversos produtos da África, necessários aos negros da Bahia e do Brasil, para a realização dos cultos.24 Foi presa de bem profunda emoção, que assisti em 1897 uma turma de velhos nagôs e haussás, já bem perto do termo da existência, muitos de passo incerto e coberto de alvas cãs tão serôdias na sua raça, atravessar a cidade em alvoroço, a embarcar para a África em busca da paz do túmulo nas mesmas plagas em que tiveram o berço. Dolorosa impressão a daquela gente, estrangeira no seio do povo que a vira envelhecer curvada ao cativeiro e que agora, tão alheio e intrigado diante da ruidosa satisfação dos inválidos que se iam, como da recolhida tristeza dos que ficavam, assistia, indiferente ou possuída de efêmera curiosidade, àquele emocionante espetáculo da restituição aos penates dos despojos de uma raça destroçada pela escravidão ... Mas a eles que, moços e vigorosos, aqui deviam ter aportado com o ódio no coração, quantas desilusões não reserva ainda esta tardia e gélida peregrinação da velhice? A África real jamais poderá realizar, para a geada invernosa dos pobres velhos, a sorridente primavera a que a imaginação escaldada da mocidade estivera a emprestar, durante todo o longo martírio do cativeiro, doçuras e encantos de pura fantasia.25

Aqueles que retornaram, membros mutilados de seu grupo de origem, voltaram para reintegrar-se aos valores da própria cultura. Aquele que retornou ao chão de origem, terra dos ancestrais, retornou para ser, com eles, mais um.
... e outros iorubás permaneceram no Brasil

Outros permaneceram. Recorro à descrição que Rugendas (1989:143) faz da condição vivida pelo africano nos engenhos de cana: Acontece muitas vezes que esse esgotamento provoca desastres. Pode ocorrer que a mão ou a roupa do negro encarregado de colocar a cana entre os cilindros seja presa; o braço, às vezes o corpo inteiro, é então esmagado, a menos que tenha socorro imediato. Em algumas fazendas vê-se, ao lado da máquina, uma grossa barra de ferro para parar os cilindros ou separá-los em caso de perigo. Entretanto, muitas vezes o único meio de salvar o infeliz é cortar-lhe, imediatamente, a machado, o dedo, a mão ou o braço preso nos cilindros.

O dedo, a mão, o braço, o corpo preso nos cilindros. Esta talvez possa ser uma boa imagem da condição atual dos brasileiros afro-descendentes, entre os quais, os descendentes dos iorubás. Sua rica cultura, seus princípios de sabedoria, sua magnífica compreensão da importância do homem, da natureza e das relações entre o natural e o espiritual permanecem subestimados ou totalmente negados.

A partir do acima exposto conclui-se sem dificuldades que a identidade e a cidadania, não apenas dos afro-descendentes mas de todos os brasileiros, constróem-se a partir de importantes elementos de cosmovisões africanas. Há um forte liame entre ancestralidade africana e construção das identidades individuais nos países de expressiva diáspora africana, ainda que essa diáspora tenha sido forçada por circunstâncias históricas. A ancestralidade africana determina significativamente a constituição da identidade nacional brasileira, apesar da negação desse fato, imposta pela ideologia do branqueamento que determina como modelo identificatório para o desenvolvimento das identidades individuais, o europeu. No entanto, como o que vive clama por expressar-se, a força vital da alma africana, presente no grupo brasileiro, contida por tanto tempo e através de tantos recursos e estratégias do poder branco, terminará por romper a espessa casca em torno dela construída.

Segredo
A teia sempre lenta
do tempo
tece amanhãs insuspeitos.
Escravos de hoje
e de ontem. POREM,
Nos brasis sem fronteiras
do imaginário
nós todos nós negros todos nós
no exílio da fome,
da violência, dos guetos,
frustrações e carências
ouvimos - muito além do Ipiranga -
um sussurro:
liberdade mesmo tardia.
Urdimos um fio na alvorada
com o mais negro da noite
e o primeiro beijo da aurora.
Um vento sem dono nem amarras
se espalha e incendeia
Na placidez de um murmúrio.
Nós todos nós negros todos nós
urdimos um fio na alvorada
com o mais negro da noite
e o primeiro beijo da aurora

 

1 Rodrigues, 1976:102
2 Santos, 1986:28
17.Rodrigues, 1976:123
18.Rodrigues, 1976:130-132
19. Rodrigues, 1976:214
10 Rodrigues, 1976:252
11 Verger, 1957: 19
212 Verger, 1957: 17
213 Rodrigues, 1976:98

 

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Jose Luciano de Oliveira Nunes
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